quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Viagem

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga

O Principezinho


... Julgava-me muito rico por ter uma flor única no mundo e, afinal só tenho uma rosa vulgar...
Foi então que apareceu uma raposa.
- Olá, bom dia! disse a raposa.
- Olá, bom dia! - Respondeu delicadamente o princepezinho...
-Anda brincar comigo - pediu o princepezinho. Estou tão triste...
- Não posso ir brincar contigo - disse a raposa. - Ainda ninguém me cativou...
- Andas á procura de galinhas? (diz a raposa)
- Não... Ando á procura de amigos. O que é que "cativar" quer dizer?
... Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.
- Laços?
- Sim, laços - disse a raposa. - ...
- Eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo e eu serei para ti, única no mundo...
(raposa) Tenho uma vida terrivelmente monótona...
Mas se tu me cativares, a minha vida fica cheia se Sol.
Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? ... não me fazem lembrar de nada. É uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então quando eu estiver cativada por ti, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti...
- Só conhecemos as coisas que cativamos - disse a raposa. - Os homens, agora já não tem tempo para conhecer nada. Compram as coisas feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não tem amigos. Se queres um amigo, cativa-me!
E o que é preciso fazer? - Perguntou o princepezinho.
- É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas todos os dias te podes sentar mais perto...
Se vieres sempre ás quatro horas, ás três já eu começo a ser feliz...
Foi assim que o princepesinho cativou a raposa. E quando chegou a hora da despedida:
- Ai! - exclamou a raposa - Ai que me vou pôr a chorar...
... Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! - disse a raposa. - Por causa da cor do trigo...
Depois acrescentou:
- Anda vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo.
O princepesinho lá foi... - vocês não são nada, disse-lhes ele. - Não há ninguém preso a vocês... - não se pode morrer por vocês...
... A minha rosa sozinha vale mais do que vocês todas juntas, porque foi a ela que eu reguei, que eu abriguei... Porque foi a ela que eu ouvi queixar-se, gabar-se e até, ás vezes calar-se. Porque ela é a minha rosa.
E então voltou para ao pé da raposa e disse:
- Adeus...
- Adeus - disse a raposa. - vou-te contar o tal segredo. É muito simples:
Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
Foi o tempo que tu perdes-te com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Os homens já se esqueceram desta verdade - disse a raposa. Mas tu não te deves esquecer dela.
Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa...


Antoine De Saint-Exupery "O Princepezinho"

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O poder das palavras

Quem vigia o vento não semeia

«Do que aqui se trata é da reabilitação cultural de um género, o da homilia. De facto, José Augusto Mourão reintroduz no discurso cristão um pensamento. A homilia torna-se a grande ocasião da leitura, e de uma apaixonada leitura, do que nos é mais próximo e mais distante, do que podemos entender das moções da alma e dos movimentos do corpo, do que significa o presente profético do mundo e o futuro utópico de Deus.»
Esta é a apresentação do livro “Quem vigia o vento não semeia”, recentemente publicado pela Pedra Angular. Escolhemos um das quase sete dezenas que o compõem.

O amor é deficiente
1. A vida é o que cada um experimenta, a vida é autorrevelação. E que nos é mais íntimo do que isto que mal sabemos definir; o amor? Nós nascemos do amor de um homem e de uma mulher. O que mais profundamente nos liga uns aos outros, em graus diferentes, é o amor. E não há amor a prazo. O amor e as tristezas não se explicam. Tocam-nos por dentro, aquecem-nos, gelam-nos, pressentimo-los como efeitos, como paixões. Porque o amor move. É no interior da vida que se tecem as relações desconcertantes que nos fundam. O amor diz-nos sempre isto: dependemos do outro para viver. Sem o outro ninguém vive. O amor é deficiente. O próprio do amor ou do sofrimento é que só cada um o experimenta. E na nossa carne que o amor e o sofrimento se nos revelam. O mesmo da alegria, da angústia e da esperança. Ora é essa certeza invencível que faz que seja impossível duvidar do amor ou do prazer.
2. Que podem as palavras de fogo que nos chegam do Pentecostes contra o impasse em que caiu o mundo? Que pode este Evangelho do desasossego contra a peste daquilo a que se tem chamado o confronto de civilizações (Huntington), que assenta na dicotomia supostamente irreconciliável do Ocidente e do islão? Quem acredita hoje no amor? «Quem acredita na sensualidade do invisível» (M.G. Llansol)? Onde nos leva esta palavra de fogo que é a inversão radical das formas de pensar e de agir do mundo? Onde nos leva este desafio ao bom senso? Homo homini lúpus (Hobbes): é nisso que acredita um cristão? O outro será sempre uma ameaça? Seremos todos suspeitos? O predador esfomeado há de tornar-se na sua presa.
3. Estes textos são como o oráculo, que se referem à vida e à sua estrutura interna. A condição humana foi abalada pela palavra de Cristo. Nem todas as palavras que Cristo dirige aos homens na sua língua falam deles. As mais essenciais falam-lhes dele. A nossa relação com Deus, que perturba as relações humanas, depende daquilo que Cristo diz de si e da sua condição. A relação do paradoxo ao Reino subsiste quando este não é designado mas apenas significado através de algumas das suas propriedades - «satisfação», «alegria», «riso», «visão de Deus», «misericórdia». Eis o que indicia o Reino, eis o que vem preencher o imenso Desejo do homem, aquilo que vem realizar a sua relação interior com Deus. Não haverá nesta palavra de fogo algo que nos escapa, mas que sentimos consubstanciai à nossa experiência?
4. Os tempos são de niilismo, que é antes de mais uma negação de todos os valores, assinalando o colapso da ideia de totalidade. O fantasma é o da fusão total (Crash). O que acontece quando a relação erótica é reduzida à sexualidade ou ao voyeurisme, que é uma profanação da vida. Os tempos são de suspeita. Não há valores na natureza. E apenas na vida e paraela, em função de necessidades e de desejos que eles lhe pertencem, que valores correlativos a estas necessidades se ligam às coisas. O tempo do niilismo vem quando a vida deixa de ser o princípio da organização duma sociedade e da vida de cada um.
5. Não podemos falar das coisas do alto e fazer da terra um inferno. O que sabemos do outro mundo é inspirado neste mundo. O que sabemos de nós é inspirado no que de nós sabem os outros. Foi isso que levou Sartre a dizer no Huis Clos: «O inferno são os outros». Interrogado sobre a sua peça, disse ele um dia: «Quando pensamos sobre nós, quando tentamos conhecer-nos, no fundo usamos os conhecimentos que os outros têm já sobre nós. Julgamo-nos com os meios que os outros têm ou nos deram para nos julgarmos. Naquilo que diga sobre mim, está lá sempre o juízo de outrem. O que quer dizer que se as minhas relações são más, me coloco na total dependência do outro. E então de facto, eu sou inferno. Há uma multidão de gente no mundo que está no inferno porque depende demasiado do juízo de outrem. O que não quer dizer que não se possa ter outras relações com os outros. Isso marca apenas a importância capital de todos os outros para cada um de nós». Mais tarde diz: «O que quis dizer é que muita gente está incrustada a uma série de hábitos, de costumes que nem sequer tenta mudar. E essa gente está como morta. No sentido que não pode quebrar o quadro das suas preocupações e dos seus costumes; e que continua a ser vítima dos juízos que sobre ela fizeram». A «vitimização» tornou-se a postura do indivíduo contemporâneo, o que o impede de se posicionar como cidadão e o que favorece a obsessiva ideia de que somos lobos uns dos outros. A competitividade substituiu a colaboração.
O mundo antigo não desapareceu. O cainismo continua a fazer vítimas. Falhou o projeto de uma modernidade secularizada e autoafirmativa. Falhou o projeto de pretensão absolutista de impor um humanismo essencialista e metafísico (Carta sobre o Humanismo, 1949). Resta um humanismo que acredita na esperança do vivo, no que é singular, no que está a acontecer e em devir («Nada foi, tudo está sendo»). A informação tornou-se um excitante da sociedade, a cafeína que a mantém acordada. A morte continua a lavrar o seu campo e o luto cobre-nos os ombros como um dia de chumbo.
6. Do amor não sabemos falar. Os amores tornaram-se cada vez mais fungíveis e frágeis. Secaram-nos os olhos. Mas a vida é boa e sem porquê, como o é a rosa de Silesius. Mestre Eckhart dizia antes dele: «por mais dura que seja a vida, quer-se todavia viver (...) Mas porque vives tu? Para viver, dizes tu, e porém não sabes porque vives. Tão desejável é ávida em si mesma que a desejamos por si mesma». Ora a rosa é o nome da vida. Floresce porque floresce. Enxugue a fonte do Amor as lágrimas dos nossos olhos a nós que tão mal amamos. Se Ele prometeu renovar todas as coisas, não renovará a nossa secura de afetos, o nosso luto, a perda da regra de ouro que a Vida nos deixou como mandamento novo?
7. Abrigam-se no desejo raízes de eternidade. O azeite que alimenta o desejo do encontro é a vigília (como expectativa e como oração). O desejo é alma da oração, dizia Agostinho. É sempre na fé, na esperança e no amor, pela continuidade do desejo. A sabedoria ensina-nos a espiritualidade do caminho: o gosto e o medo do desconhecido, a camaradagem no caminho, o sentido da filialidade, a mobilidade e o destaque das Escrituras, a alegria de viver em conjunto, na doçura da fraternidade. «Desperta, abre os olhos e vê a que madrugas» (Vieira). Vigiai, madrugai para o louvor, não apenas para o ídolo que se compra e se vende. Que ela permaneça sentada à nossa porta. E que o desejo em nós nunca adormeça. Quem ama, não dorme.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Para pensar...

A estória da Carroça Vazia

Certa manhã, o meu pai convidou-me a dar um passeio no bosque o que aceitei com prazer.
Parámos num sítio plano e depois de um pequeno silêncio perguntou-me:
- Além do cantar dos pássaros, ouves mais alguma coisa?
Apurei os ouvidos alguns segundos a respondi:
- Sim, estou a ouvir um barulho de carroça.
- Isso mesmo - disse o meu pai - É uma carroça vazia...
Perguntei ao meu pai:
- Como podes saber que a carroça está vazia, se ainda nem a vimos?
- Ora, não tem nada que saber - respondeu o meu pai. É mesmo muito fácil saber que uma carroça está vazia! É por causa do barulho que faz. Quanto mais vazia a carroça estiver, maior é o barulho que faz.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A atenção

Comecemos talvez de um modo desajeitado, perguntando: o nosso mundo interior é uma cebola ou uma batata? A pergunta faz-nos sorrir, é um bocado cómica, mas, se quisermos, acaba por colocar-nos perante a nossa realidade de uma forma bastante profunda. A pergunta pode ser feita numa cozinha, por uma criança que está a descobrir o mundo, pode ser proferida por filósofos nos seus tratados ou pode ser formulada por um mestre espiritual. O nosso mundo interior é uma cebola ou uma batata? Nietzsche, por exemplo, dizia que «tudo é interpretação», isto é, não há um núcleo de Ser a sustentar a nossa experiência de vida, tudo são cascas de cebola, modos de ver, perspetivas, interpretações. Para lá disso não há mais nada. Uma visão espiritual do mundo, por outro lado, está certamente do lado da batata, pois considera que mesmo escondida por uma crosta ou por um véu persiste uma realidade que é substanciosa e vital.
A verdade é que mesmo sabendo que a vida é uma batata, nós vivêmo-la muitas vezes como se fosse uma cebola. Vivemos de opiniões, de verdades parciais e provisórias, de paixões, vivemos aparências e modas como se a vida fosse isso. Esgotamo-nos a desfilar cascas e camadas, sem um centro que nos dê realmente acesso ao pleno sentido. Há uma escritora contemporânea, Susan Sontag, que diz que a nossa existência como que fica sequestrada neste sem fim de interpretações que nos distraem da viagem essencial. Não habitamos em nós próprios, levados por ideias, pontos de vistas, cascas e mais cascas. Segundo ela, o mais urgente seria apurar e aprofundar os nossos sentidos, aprendendo a ver melhor, a sentir melhor, a escutar melhor.
Na vida espiritual também é isso o mais importante. Simone Weil escrevia que ela é fundamentalmente feita de atenção: «é a orientação para Deus de toda a atenção de que a alma é capaz». Da qualidade da atenção depende em muito a qualidade da vida espiritual.
Possamos dizer a verdade do poema de Sophia de Mello Breyner Andresen:

«Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio.»

Os sentidos espirituais abrem-se e maturam no silêncio. Se mergulhemos neles, tornam-se trilhos para o nosso caminho. É esse o conselho que os mestres unanimemente  fazem para passarmos da cebola à substanciosa e vital batata. O conselho de Arsénio, um dos Padres do Deserto (eremitas cristãs que fundaram a espiritualidade monacal) soava assim - «Foge. Cala-te. Permanece no recolhimento». Poemen garantia - «Se fores realmente silencioso, em qualquer lugar onde estiveres encontrarás repouso». João Clímaco, na primeira metade do século VII, escreveu: «o amigo do silêncio aproxima-se de Deus, e encontrando-se com Ele em segredo, recebe a sua luz». Isaac de Nínive prescrevia aos que o procuravam: «Ama o silêncio acima de todas as coisas; ele concede-te um fruto que à língua é impossível descrever… Dentro do nosso silêncio nasce alguma coisa que nos atrai ao silêncio. Que Deus te conceda perceber aquilo que nasce do teu silêncio.»

José Tolentino Mendonça
In Diário de Notícias - Madeira
16.01.11

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

"A Invisibilidade de Deus

dizem que em sua boca se realiza a flor
outros afirmam:
a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão de sua bondosa mão

o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge etéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou algumas vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser o meu."

Al Berto, O Medo